Enfraquecimento interno pode impulsionar ações externas de Trump, segundo analista
Um eventual enfraquecimento de Donald Trump no cenário político interno dos Estados Unidos pode, paradoxalmente, aumentar a audácia de suas iniciativas no exterior. A projeção é de Christopher Garman, managing director Americas da Eurasia Group.
Garman explica que, quanto mais Trump sentir sua posição doméstica fragilizada, maior tende a ser sua ousadia em ações internacionais. Essa dinâmica, segundo ele, já tem sido observada, com os eleitores americanos mais focados em questões de custo de vida.
A avaliação é de que o presidente americano pode enfrentar uma derrota nas eleições de meio de mandato deste ano, com um aumento de cadeiras para o Partido Democrata. Essa perspectiva, em vez de frear novas ações, pode reforçar investidas em regiões como o Irã e a Europa no curto prazo, segundo o analista, conforme informações divulgadas pelo portal InfoMoney.
Escalada de risco geopolítico com foco no Irã e Europa
O diretor da Eurasia Group sinaliza um aumento na probabilidade de uma ação militar mais agressiva contra o Irã. “O que começamos a ver é uma ambição de decapitar o regime”, afirma Garman, atribuindo essa possibilidade à influência do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e ao sucesso percebido da ofensiva americana na Venezuela.
Em outra frente, as tensões com a Europa, que já incluíram ameaças contra a Groenlândia, devem persistir. Garman alerta para a importância de não subestimar essa situação, que representa uma ameaça à soberania de um aliado histórico.
Para lidar com a desaprovação interna, Trump deve focar em medidas para amenizar o custo de vida, como propostas de limite para juros de cartões de crédito, pressão sobre o Federal Reserve e intervenções no mercado imobiliário. Essa conjuntura pode reforçar uma tendência de dólar mais fraco globalmente, embora a moeda deva manter seu status de reserva.
Desafios europeus e a busca por autonomia
O cenário europeu também apresenta desafios, com economias enfrentando questões de produtividade e dinamismo. Além disso, há um ciclo de reprovação de líderes nos principais países — França, Reino Unido e Alemanha — e o crescimento de partidos populistas de direita, o que leva Garman a afirmar que “a ‘união’ da União Europeia está ruindo”.
Os recentes eventos internacionais tornaram mais clara para a Europa a necessidade de não depender dos Estados Unidos em questões de armamento e gastos militares, impulsionando acordos com países como Índia e Mercosul.
Arrefecimento nas relações EUA-China e o papel do Brasil
Em contrapartida, a Eurasia Group vislumbra um arrefecimento na disputa entre Estados Unidos e China. Garman aponta que o governo Trump subestimou o poder de barganha chinês, especialmente em relação a terras raras, e que haverá um acordo para normalizar a relação, com a queda de tarifas e a retomada de compras de agronegócio americano.
Nesse contexto de protecionismo global, potências médias como o Brasil podem se beneficiar. Apesar de desafios fiscais e altas taxas de juros, o país se destaca como potência agro e energética em ascensão, com reservas de petróleo, energia limpa e terras raras, ativos que tendem a ganhar valor em um mundo que busca resiliência.