Museu do Ipiranga Revela Debret: A Visão Dupla do Pintor Francês que Desafiou o Império e Inspira Artistas Hoje

Museu do Ipiranga Apresenta “Debret em Questão”, Mostra Imperdível que Reconecta o Brasil com seu Passado Através da Arte

O Museu do Ipiranga, em São Paulo, abre suas portas para a fascinante exposição “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos”, uma imersão profunda na obra do pintor francês Jean-Baptiste Debret. A mostra reúne 35 gravuras originais do artista, que viveu no Brasil entre 1816 e 1831, e as contrapõe a trabalhos de 20 artistas brasileiros e estrangeiros que reinterpretam sua visão de forma inovadora e crítica.

A exposição, que fica em cartaz até maio de 2026 e oferece entrada gratuita, é um convite para revisitar a história do Brasil sob uma nova perspectiva. Debret, conhecido por sua dupla atuação como pintor da corte e observador atento do cotidiano popular, registrou em suas obras as complexidades sociais e culturais do período, incluindo a dolorosa realidade da escravidão.

A curadoria, a cargo da jornalista Gabriela Longman e do sociólogo Jacques Leenhardt, propõe um diálogo entre o passado e o presente, evidenciando como as imagens de Debret continuam a ressoar e a provocar reflexões na arte contemporânea. A iniciativa é parte da Temporada França-Brasil 2025, celebrando os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Conforme divulgado pela Agência SP, a exposição já passou pela Maison de l’Amérique Latine, em Paris, em uma versão adaptada.

Debret: O Olhar Duplo Sobre o Brasil Imperial

Jean-Baptiste Debret (1768-1848) desembarcou no Brasil em um momento crucial de transição, acompanhando a passagem da Colônia para o Império. Sua obra, dividida entre o registro oficial da corte e a observação minuciosa das ruas, oferece um panorama único da sociedade brasileira da época. Debret não se limitou a retratar a beleza exótica, mas também expôs a brutalidade do regime escravocrata e a riqueza cultural dos povos indígenas e negros.

As gravuras originais de Debret, emprestadas por instituições como a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, o Instituto Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles, são o ponto de partida para a reflexão. Elas compõem o livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, publicado em 1834, após seu retorno à França. Este álbum iconográfico, com cerca de 800 desenhos e aquarelas transformados em 152 gravuras, detalha a natureza, os costumes e o cotidiano, com um foco significativo nas pessoas escravizadas.

A força dos registros sobre a violência contra a população negra foi um dos motivos pelos quais a obra de Debret não foi bem recebida inicialmente. A Biblioteca Imperial chegou a recusar um exemplar por considerar que a retratação do regime escravocrata violento não se alinhava à imagem que o Império desejava projetar. Debret, no entanto, foi pioneiro ao evidenciar o protagonismo dos escravizados na construção do Brasil, ironizando a inércia dos portugueses diante da modernização.

Releituras Contemporâneas: Diálogo com o Passado

A exposição “Debret em Questão” se destaca pela vibrante seleção de artistas contemporâneos, vindos de diversas regiões do Brasil e do exterior. Seus trabalhos, que abrangem pintura, fotografia, instalação, colagem digital e vídeo, exploram as obras de Debret sob diferentes abordagens, utilizando estratégias discursivas que vão da ironia ao humor, passando pela denúncia explícita da violência.

A artista maranhense Gê Viana, por exemplo, transforma imagens de sofrimento em celebração em sua série “Atualizações Traumáticas de Debret”. Utilizando colagens e manipulação digital, ela reposiciona o protagonismo negro, antes associado à dor, em um espaço de festa e alegria. Sua releitura da gravura “Um Jantar Brasileiro”, intitulada “Sentem para Jantar”, apresenta uma família negra reunida à mesa, simbolizando união e abundância.

Denilson Baniwa, artista indígena do Amazonas, insere elementos tecnológicos em suas releituras, como o símbolo de wi-fi em “Arqueiro Digital”, questionando a perspectiva de Debret sob uma ótica contemporânea e indígena. Heberth Sobral, de Minas Gerais, incorpora bonecos Playmobil em suas recriações de cenas como “Um Jantar Brasileiro” e “Negros Serradores de Tábuas”, adicionando um toque lúdico e crítico.

As artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvea, a partir da presença de mães negras nas gravuras de Debret, adicionam elementos da cultura afro-brasileira e do culto popular, como guias e cristais, em um ato de reparação e conexão com as divindades protetoras. Jaime Lauriano, com sua série “Justiça e Barbárie”, justapõe fotografias atuais de violência contra homens negros a títulos de gravuras de Debret, como “Negros ao Tronco”, provocando uma reflexão sobre a persistência das relações de poder e barbárie no Brasil.

Uma Experiência Sensorial e Educacional

A exposição oferece recursos para todos os públicos, incluindo reproduções em relevo de obras como “Regresso de Um Proprietário de Chácara” e “Caboclo”, com descrições em braile, permitindo o acesso tátil. Uma seção dedicada à arte-educação convida os visitantes a interagir com quebra-cabeças e jogos de memória, que conectam as obras de Debret às suas releituras contemporâneas, promovendo o aprendizado de forma lúdica e envolvente.

A mostra também reserva um espaço para o desfile da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro em 1959, que teve Debret como tema, com fotos do fotógrafo Marcel Gautherot. As imagens capturam a apropriação das vestimentas da corte e do universo senhorial pelos passistas, em uma celebração vibrante que reverbera no espaço da exposição.

Para a curadora Gabriela Longman, “Debret em Questão” é um convite para desacelerar o olhar na sociedade pós-moderna e reconhecer que as imagens possuem história e estão sujeitas a interpretações que se modificam com o tempo. A exposição propõe um olhar crítico sobre nossa relação com o fluxo de materiais imagéticos, extrapolando a obra de Debret para uma reflexão mais ampla sobre a construção da identidade e memória no Brasil.

A exposição “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos” está aberta ao público de terça a domingo, das 10h às 17h, no Museu do Ipiranga da USP, localizado no Parque da Independência, em São Paulo. A entrada é gratuita.